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  • Graziela Brum

Vitória-régia




- Ele está ‘bafando’ na minha cara! Sai! Ah! Vou socar, olha. Mãe!

O menino pega as pernas com as mãos, a cabeça enorme e os óculos

de grau se sacodem em cima da camisa de algodão com gola dobrada, já vai

amarela nas beiras, a caneta pequena no bolso, bermuda de risca de tergal,

chinelos que não combinam com o resto, jeito de quem não fez nada, o

dicionário.

- Dê sossego a sua irmã, não vê que está chorando?

- Fuuuuuuuuu!

‘Bafou’ de novo. O movimento é simples, uma curvatura a mais no

pescoço ínfimo e o ar sai quente no rosto da infeliz. Os dedos magros apertam

outra vez os joelhos, a franja na testa enorme vai se dividindo em tufos finos, a

boca se abre, os caninos finos também, o queixo estoura em agulha, ri agudo,

o menino é fino inteiro, uma doçura feia, é inteiro feio, até nas falanges é feio, a

caneta no bolso, o dicionário.

- Mãe!

A tarde toda da véspera no rolinho de cabelo, um bocado de roupas por

dobrar antes das seis da tarde, os shorts que costurou pros filhos, um casal,

assim vai bem, um casal é decisão equilibrada numa família, a Fanta nos cantis

de plástico com textura de bolas difíceis de lavar, os sanduíches de linguiça pra

parada no caminho, fazer um de queijo com presunto pra menina, ela não

come os de linguiça.

Prometeu irem ao Jardim Botânico da revista, o tal que tem a vitória-

régia. Isso se não brigassem com a coisa de se bafejarem no carro do pai,

único do grupo apto a seguir estrada de volante na mão, conduzindo, asfalto

ruim afora, a família e o mau humor de dez anos de serviço como

representante de laboratório. Aliás, Inspetor de Vendas! – nome que a filha não

sabe repetir na escola quando preenche a ficha de profissão do dia dos pais.

Uma criança de dez anos, dizem na reportagem, pode ficar em pé numa

vitória-régia. Pode mesmo segurar ainda uma merendeira e um caderno,

enquanto, com seus cabelos azuis, assim é a ilustração da matéria, sorri pra

um fotógrafo.

- Mãe! Ele me ‘bafou’ na cara mais uma vez.


O filho magro e feio vai levar um tapa. Vai azedar depois. Mas sem

chorar. A perna de agulha, os joelhos magros, a caneta no bolso e os chinelos

úmidos batem ritmados no banco de trás. Pega os óculos, limpa na bermuda

de tergal, puxa a caneta e abre o dicionário.

- Não ligo. Sou um intelectual.

A irmã, ignorante demais do vício pré-acadêmico do feio, assustada

demais com o bloco de folhas de papel bíblia em formato de chaveiro sacadas

da bermuda de risca, vingada de menos no sorriso de gozo do pai que olha a

cena pelo espelhinho do meio do para-brisa e se orgulha do filho, já quase um

doutor, dá de ombros. O negócio, afinal, é saber onde a merendeira está, será

na mala da mãe? Buscar um fotógrafo, subir na planta, ter cabelo azul.


Marta Neves


(texto desenvolvido a partir de ativação de memórias pelas vitórias-régias que

comi no Pará)


Marta Neves é artista visual e escritora. Publicou o livro "3 barrigudinha 10 real". Participou da Residência Artística Literária Memorialismo Entre o Rio e Mar, com curadoria de Stefanni Marion, em Campo de Heliantos.

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