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  • Graziela Brum

#CINCO – GRAZIELA BRUM EDIÇÃO 17

Por Graziela Brum na REVISTA VÍCIO VELHO 02/10/2020



A memória falha. Sabe-se, aliás, que há tipos diferentes de memórias e talvez por isso as recordações do passado recente e do passado distante possam confundir nosso cérebro. Seja como for, quem de nós nunca esqueceu um fato ou, ainda, se recorda de uma cena que jamais existiu? O esquecimento, sem dúvida, é o lapso da mente com mais recorrência. Porém, em Literatura, se lembrar do que nunca aconteceu é ponto central do trabalho do escritor. Diria, ainda, que em Literatura, há pelo menos duas memórias. A primeira é da personagem e a outra é do escritor. Decerto, os tipos de memórias podem se confundir e não se distinguir uma da outra, o que não é, em absoluto, um erro. Como se sabe, em escrita, tudo depende do tipo de projeto, não há um projeto melhor do que o outro, existem projetos mais elaborados, com elementos mais complexos, que, por sua vez, são capazes de gerar textos mais autênticos. Muito embora, nada disso seja uma garantia.

No entanto, é fundamental aprender a separar a memória da personagem da memória do escritor. Habilidade que nos permite mais domínio da escrita e da construção do texto. Além disso, quando nos envolvemos com a personagem, digo, nos colocamos na posição dela e deixamos nossas próprias vontades, emerge no texto a verdadeira emoção que a cena deve evocar. Isso não quer dizer que não se possa escrever sobre o próprio pai, sobre o filho, mas se faz necessário entender que o pai personagem não é o pai genético, por exemplo. O pai personagem é ficcional e deve encontrar seu caminho, mesmo que seja o caminho que o escritor gostaria na não-ficção de sua própria vida.

Enfim, a ficção não pode se comprometer apenas com sentimentos e vontades do escritor. Talvez por isso muitos escritores falem que a personagem cria pernas e anda por caminhos que não planejamos, justo porque a emoção deve acompanhar os fatos, e muitas vezes elas são diferentes daquelas passadas pelo escritor e dos sentimentos recordados. É possível, inclusive, que o sentimento mude quando colocamos no papel um acontecimento, pois há aí o aprofundamento do que recordamos. Isto ocorre, certamente, porque não nos recordamos com exatidão da cena do nosso passado, mas do sentimento que ela nos causou. Ao refazer a cena, digo, ao escrever a cena, a emoção compatível pode ser outra e aí a personagem começa a abrir suas asas e voar por trajetórias inesperadas. A mágica e o mistério ocorrem quando o escritor tem habilidade e consciência dessas possibilidades e deixa o fluxo emocional do texto acompanhar a construção narrativa.

Fato é, para trabalhar a personagem é imprescindível buscar os fatos que marcaram sua memória, não, exatamente, o passado tal qual aconteceu, mas, sobretudo, a forma como a personagem interagiu diante dos episódios narrados. Ou seja, a experiência e a maneira como a personagem sente são pontos fundamentais para encontrar o tom emocional do texto e trazer vivacidade à história. Então, não é o fato em si, mas o sentimento que ele inaugura dentro do texto.

Historicamente, pode-se dizer que há uma diferença entre a violência causada a mulher tomada como escrava na África da violência sofrida pela mulher judia na Segunda Guerra Mundial. Quando contados de forma literária, os acontecimentos cronológicos são apenas o pano de fundo para os temas mais complexos da natureza humana, o que poderia aproximar duas personagens em contextos historicamente distintos, mas que sofrem violências semelhantes. No entanto, os acontecimentos não definem o tom do texto, mas é a memória carregada pela personagem um dos pontos chaves para o desdobramento da narrativa. Diante disso, é possível pensar que os conflitos em literatura, mesmo que parecidos, trazem narrativas com tons emocionais distintos.

Em tal contexto, é interessante traçar os fatos regressos, as memórias culturais e familiares, os acontecimentos da infância, da adolescência e assim construir a personagem com toda a bagagem de sua história. Trazer a experiência íntima em cada passagem e assim conjurar protagonistas tão vivos que é possível topá-los na esquina do bairro de casa.

_______________________ Graziela Brum idealizou e coordena o Projeto Literário Senhoras Obscenas. Vencedora de dois concursos ProAc em São Paulo, com Fumaça (2014) e Jenipará (2019) – que é o primeiro romance de uma trilogia sobre a Amazônia -, também publicou Vejo Girassóis em Você (Lumme), de prosa poética.



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